China-LAC 2016: o índice mais assustador da China e como sobreviver a ele

Quase todos os números, índices e estatísticas sobre a China costumam ser hipérboles e impressionantes – para o bem ou para o mal. E quando você pega o desenvolvimento chinês dos últimos 30 anos, todos os outros países parecem províncias.

Ao tentar fazer negócios na China, você vai se deparar com o índice que achamos mais impressionante de todos: apenas 10 milhões de chineses conseguem se comunicar, de fato, em inglês.

É um índice que todos os setores da economia levam em consideração para fazer negócios e falam abertamente sobre. Há outro índice, mais simpático: a China tem algo em torno de 300 milhões de pessoas que estão aprendendo ou se especializando em inglês.

Então, há muita gente que entende o inglês básico e pode trocar uma rápida conversa ou orientação, sem dúvida. Mas conversar, negociar, articular, convencer, argumentar? Você vai ter problemas sem falar chinês ou sem ter alguém realmente fluente em Mandarim por perto.

É justamente o número que dizima inúmeras possibilidades de negócios ou expansão comercial, principalmente de pequenas empresas como a nossa e de várias outras que estiveram presentes, em outubro, na Cúpula Empresarial China-América Latina (China-LAC), nas cidades de Tangshan e Beijing.

Se você considerar que o país tem 1.4 bilhão de habitantes – sem contar Hong Kong, Macau e Taiwan – esses 10 milhões equivalem a apenas 0,7% da população.

É impressionante especialmente porque, diferentemente do Brasil e de outros países da América Latina, as maiores cidades chinesas são sinalizadas também em inglês. Tudo é bilíngue. O mercado está aberto em inglês, o consumo é gigante, as redes americanas estão em toda esquina e os chineses não se fazem de rogado: eles não querem marcas chinesas, querem marcas globais.

Até o transporte público é bilíngue. A ponto de deixar muito país rico europeu com vergonha, que insistem em não sinalizar as cidades e o metrô em outro idioma.

Tangshan, China

Centro de Convenções em Tangshan, a 150km da capital Beijing. Foto: Paradox Zero

Aos poucos, mesmo os restaurantes mais tradicionais estão imprimindo um cardápio para estrangeiros, em inglês, seguindo uma tendência bem natural dos restaurantes maiores e próximos a pontos turísticos.

Às vezes com o preço maior, é verdade, mas pelo menos você entende minimamente o que vai pedir.

A dificuldade de encontrar bons intérpretes, por exemplo, transforma grandes eventos feito a Cúpula Empresarial, que participamos a convite do BID e do Bank of China, num quase-fiasco em termos de tradução simultânea e geração de oportunidades comerciais.

Nas rodadas de negócios, a maior parte dos intérpretes tinha inglês de básico para ruim, a ponto de a maioria realmente não entender o interlocutor e vice-versa.

Mas esse básico para ruim já é um grande avanço para a China de hoje, que consome o mercado global, vende para o mercado global, mas não se comunica com o mercado global.

Como a internet é realmente ubíqua nas principais cidades chinesas, você consegue sobreviver fácil baixando o Google Translate no celular. Ele atende todas as necessidades básicas de rua, você digita em inglês (ou português, espanhol etc.) e aparece em chinês.

Basta mostrar a tela a qualquer pessoa e eles podem responder no seu celular, digitando, ou apontando direções.

O Google Translate tem arquivos offline para baixar, então nem de conexão você precisa. Basta o celular ligado e tudo se resolve, não precisa nem de chip/simcard.

Para fazer negócios, contudo, a história é outra. Natural e culturalmente fechados, nenhuma empresa chinesa vai fazer negócio em inglês. Esqueça.

E se você acha ruim o inglês macarrônico dos chineses, eles também não vão levar você a sério com chinês de cursinho.

Outro grande obstáculo para as pequenas empresas é a censura digital na internet, conhecida como Great Firewall of China, uma alusão à Grande Muralha (Great Wall).

Vamos falar mais sobre esse firewall – e como sobreviver a ele – no próximo artigo sobre nossa participação na Cúpula Empresarial da China-LAC 2016.